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Doces que Contam História: As Origens e Tradições dos Bolos Mais Icônicos de Pernambuco

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Doces que Contam História: As Origens e Tradições dos Bolos Mais Icônicos de Pernambuco
Foto: Shutterstock

A doçaria pernambucana é resultado direto de séculos de convivência com o açúcar — um produto que moldou a cultura, a economia e até o paladar do estado. Entre receitas trazidas da Europa e adaptações criadas nos engenhos, surgiram três clássicos que atravessam gerações: o bolo de rolo, o bolo Souza Leão e o tradicional bolo de noiva.
Segundo o professor Bruno Celso Vilela Correia, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o vínculo do estado com a cana-de-açúcar fez florescer um vasto repertório de doces. Goiaba, ovos e mandioca são alguns dos ingredientes que ajudaram a transformar influências portuguesas e inglesas em sabores tipicamente pernambucanos.

Bolo de Rolo: O “Hipnótico” Caracol Pernambucano
O bolo de rolo, um dos símbolos culinários do estado, tem raízes no tradicional doce português colchão de noiva. A versão europeia, um tipo de rocambole feito com amêndoas, ganhou adaptações quando chegou aos engenhos pernambucanos.
Sem acesso fácil ao doce de amêndoas, os cozinheiros passaram a usar a goiabada — abundante na região. Com o tempo, o bolo ganhou características próprias: camadas ultrafinas de massa, recheadas com goiabada e enroladas com precisão, criando um efeito visual que muita gente apelida de “hipnótico”.
Bruno explica que essa evolução veio da técnica e da criatividade dos cozinheiros:
“As pessoas foram se esmerando. O resultado é esse caracol perfeito que virou um ícone.”

Bolo Souza Leão: Um Clássico da Aristocracia dos Engenhos
Feito com massa de mandioca e até 22 gemas, o bolo Souza Leão é uma combinação da tradição portuguesa de usar muitos ovos com ingredientes tipicamente brasileiros. O nome homenageia a influente família Souza Leão, proprietária de engenhos durante o auge do ciclo da cana.
Mais do que um doce, ele era um símbolo de status.
“Ter o nome da família em um bolo era uma forma de marcar presença na culinária da época”, explica o professor.
Apesar do nome aristocrático, a produção desses doces estava, em grande parte, nas mãos de pessoas escravizadas, responsáveis por desenvolver as receitas que atravessaram séculos.

Bolo de Noiva: Frutas, Vinho e História nas Festas Pernambucanas
Tradicional nos casamentos do estado, o bolo de noiva tem provável influência inglesa, reconhecida pela maneira de preparar bolos mais densos. Sem registros históricos definitivos, sua origem exata é incerta, mas a receita é bem conhecida: ameixa, uvas-passas, frutas cristalizadas, vinho e uma generosa cobertura de glacê.
Por suas camadas ricas e sabor marcante, o doce se consolidou como o protagonista das festas de casamento:
“Ele se tornou convencionalmente o bolo da noiva, sempre presente nas celebrações”, comenta Bruno.

Patrimônio Afetivo e Histórico
Do caracol preciso do bolo de rolo ao brilho do glacê do bolo de noiva, passando pela textura única do Souza Leão, esses doces representam muito mais do que receitas tradicionais: carregam a memória de um povo, o legado dos engenhos e a mistura cultural que forma Pernambuco.

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