Criador do Pix deixa o Banco Central e assume cargo no FMI para impulsionar pagamentos globais
Brandt leva experiência brasileira ao cenário internacional
Depois de 23 anos no Banco Central (BC), Carlos Eduardo Brandt — líder da equipe que criou o Pix — deixou a instituição e o Brasil há três meses. Ele trocou Brasília por Washington para atuar no Fundo Monetário Internacional (FMI), onde agora integra a área de pagamentos e infraestruturas de mercados.
A mudança encerra uma trajetória marcada pela tradição familiar no BC — pai e avô também foram servidores — e por um período em que a autarquia ganhou protagonismo global. Brandt foi reconhecido internacionalmente em 2021, quando entrou na lista da Bloomberg das 50 pessoas mais influentes do mundo dos negócios, impulsionado pelo impacto do Pix, que havia completado um ano com mais que o dobro de usuários.
Pix se consolida como modelo mundial
Desde seu lançamento, o Pix se transformou na principal solução de pagamentos do Brasil. Hoje, soma 161,7 milhões de usuários pessoas físicas e 16,3 milhões jurídicas, tendo movimentado R$ 85 trilhões em cinco anos — sete vezes o PIB brasileiro. O sistema já supera o cartão de crédito em popularidade e é usado por 93% da população adulta, segundo estudo da fintech Ebanx.
As projeções indicam que o Pix atinja 7,9 bilhões de transações mensais ainda em 2025, com volume anual estimado em R$ 35,3 trilhões, alta de 34% em relação a 2024.
Esse desempenho transformou o sistema brasileiro em referência global, inspirando países e instituições. O próprio FMI convidou Brandt para contribuir na ampliação de pagamentos instantâneos internacionais — tema central do seu trabalho desde agosto.
Desafios para conectar sistemas financeiros
Brandt destaca que pagamentos entre países enfrentam uma série de obstáculos: legislações distintas, padrões internacionais, múltiplas moedas e exigências de segurança. Ele acompanha iniciativas como o projeto de integração financeira da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e o Nexus, do Banco de Compensações Internacionais (BIS), considerado um "Pix internacional" em implementação na Índia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia.
O objetivo é reduzir custos, simplificar transações e aumentar a eficiência global. Em situações como remessas de imigrantes, que pagam em média 6,5% de tarifa, o impacto seria imediato e significativo.
O poder das infraestruturas públicas digitais
O Pix se tornou exemplo mundial de infraestrutura pública digital — um sistema operado pelo Banco Central, e não por empresas privadas. Para Brandt, isso garantiu inclusão, neutralidade e fortalecimento do mercado doméstico, evitando concentração nas mãos de big techs, como ocorreu na Índia com o UPI.
A iniciativa brasileira inspirou países e foi destacada pela ONU, que incentiva governos a adotarem plataformas públicas para serviços digitais. O Brasil, inclusive, compartilha suas experiências em projetos como a Carteira de Identidade Nacional (CIN) e a Rede Nacional de Dados de Saúde.
Investigação nos EUA e impactos geopolíticos
O sucesso do Pix também chamou atenção do governo dos Estados Unidos. Em julho, o Office of the United States Trade Representative (USTR) incluiu o sistema brasileiro em uma lista de práticas consideradas potencialmente desleais, o que abriu uma investigação.
A suspeita é de que o modelo brasileiro afete lucros de gigantes de tecnologia que operam soluções de pagamentos. Brandt evita polêmica e reforça que infraestruturas públicas digitais representam um “jogo de ganha-ganha”, que pode inclusive gerar novas oportunidades para empresas privadas.
Brasil como laboratório global
Especialistas afirmam que o país se tornou um "laboratório global de finanças digitais". Um relatório da Valor Capital Group destaca que o Brasil oferece um exemplo concreto de como a combinação entre inclusão, digitalização e coordenação pública cria ambientes de inovação. Além do Pix, entram nessa vitrine iniciativas como o Open Finance e o sistema de identificação digital do gov.br.
Para Brandt, a experiência brasileira agora ganha escala mundial — enquanto o Pix segue se consolidando como o maior case de inovação financeira já criado na América Latina.
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